Uma investigação sobre os impactos econômicos das emergências climáticas no Assentamento Salgado Comprido, em Itarema, revela a vulnerabilidade de quem vive da terra — e as estratégias de resistência de uma comunidade que se recusa a desistir.
Quando a seca não dá trégua
No coração do sertão cearense, onde o sol castiga a terra vermelha e as chuvas tornaram-se promessas cada vez mais raras, famílias agricultoras enfrentam uma batalha silenciosa contra as mudanças climáticas. O Assentamento Salgado Comprido, em Itarema, é um exemplo vivo dessa realidade.
Aqui, 15 famílias dependem quase integralmente do que a terra oferece. Esta reportagem é resultado de um projeto científico desenvolvido na Escola Estadual de Educação Profissional Carlos Francisco Araújo Barros, onde duas estudantes de educação profissional, com orientação de uma educadora comprometida com a realidade rural, mergulharam na complexidade de como as emergências climáticas transformam a economia, a cultura e o cotidiano de quem vive do trabalho na terra.
"O que elas descobriram vai muito além de números. É uma história de resiliência, de saberes ancestrais que persistem, de esperança que não morre enquanto houver sementes para plantar."
— Priscila Santos de Sousa, educadora orientadora
A agricultura que alimenta e sustenta
No Assentamento Salgado Comprido, a agricultura não é apenas um ofício herdado de gerações. É o alicerce da vida econômica das famílias. Os dados da pesquisa revelam uma realidade crua: a atividade agrícola é responsável por 50% de toda a renda familiar. Essa dependência quase absoluta transforma cada evento climático extremo em ameaça real à sobrevivência.
Os principais problemas enfrentados compõem um retrato desolador: queda da produção agrícola, aumento dos custos dos alimentos, incidência crescente de pragas e doenças e baixa disponibilidade de chuva — fatores que afetam permanentemente o assentamento e suas famílias.
Quando a renda agrícola cai, não existe uma rede de proteção robusta. A maioria das famílias não tem acesso a crédito formal, seguro-safra ou assistência técnica regular. A crise climática é, para elas, também uma crise econômica imediata.
Os cultivos que tecem a vida no campo
Nos quintais e pequenas glebas do assentamento, a diversidade cultivada conta a história de um povo que conhece profundamente a terra. Os cultivos que sustentam as famílias refletem necessidade econômica e segurança alimentar:
O milho é o soberano do assentamento, plantado em praticamente todas as propriedades. Mas os períodos de plantio tornaram-se cada vez mais imprevisíveis. As chuvas que deveriam chegar em outubro não vêm. O milho, plantado com esperança, morre na estiagem antes de frutificar.
O feijão é a base da alimentação nordestina. A mandioca, que se transforma em farinha, resiste melhor à seca, mas também é afetada por pragas. As hortaliças sofrem com a falta d'água. Coco, caju, jerimum e galinhas caipiras completam a economia diversificada — uma estratégia instintiva de não colocar todos os ovos na mesma cesta.
Quando o clima vira inimigo
As famílias do Assentamento Salgado Comprido percebem claramente as mudanças climáticas. Não é abstração acadêmica. É presente imediato, sentido no corpo, no bolso e na mesa.
A seca no sertão cearense não é novidade, mas sua intensidade e duração mudaram drasticamente. O calendário agrícola centenário não serve mais. O aumento das temperaturas favorece a proliferação de pragas, acelera a evaporação da água e aumenta o estresse das plantas.
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Queimadas frequentes Incêndios cada vez mais comuns destroem vegetação nativa, empobrecendo o solo e eliminando reservatórios naturais de umidade.
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Aumento das temperaturas Calor extremo acelera a evaporação da água do solo, aumenta o estresse hídrico das plantas e favorece a proliferação de pragas e doenças.
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Alterações no regime de chuvas As precipitações tornaram-se imprevisíveis. O agricultor não sabe mais quando plantar. Chuvas escassas ou fora de época comprometem toda a safra.
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Proliferação de pragas O calor e a seca criam condições ideais para insetos e fungos que atacam as lavouras, destruindo safras inteiras e aumentando o custo de produção.
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Descarte irregular de lixo A ausência de coleta adequada gera acúmulo de resíduos que contaminam nascentes, lagoas e solos — agravando o impacto ambiental já produzido pelo clima.
Ciclo do impacto: Temperaturas sobem ↑ → Pragas se proliferam ↑ | Chuvas caem ↓ → Produção cai ↓ | Renda cai ↓ → Preços dos alimentos sobem ↑ | Vulnerabilidade das famílias aumenta ↑↑↑
Cultura e identidade do campo
Para entender Salgado Comprido, é preciso olhar além dos números. A agricultura não é apenas atividade econômica. É identidade. É herança. É a forma através da qual famílias mantêm viva uma cultura que antecede o Brasil moderno.
No trabalho na terra, transmite-se conhecimento entre gerações. O avô ensina o neto a plantar observando a lua. A mãe mostra à filha como processar mandioca. Essa transmissão de saberes é vivida, praticada, incorporada no corpo e na alma de quem cresce no campo.
A mesa do agricultor conta histórias. O feijão vem da própria plantação. Essa soberania alimentar é mais que nutrição. É dignidade. O trabalho não é solitário — é trabalho familiar e comunitário. Os agricultores de Salgado Comprido sempre praticaram sustentabilidade como forma de sobreviver.
"A mesa do agricultor conta histórias. O feijão vem da própria plantação. Essa soberania alimentar é mais que nutrição. É dignidade."
— Reportagem Ceará Científico 2025
Ciência e sabedoria popular
A solução não está em escolher entre ciência e sabedoria popular. Está em integrar ambas. Os agricultores possuem conhecimento profundo sobre a terra, plantas e ciclos naturais. Observar as fases da lua para plantar é astronomia popular. Conhecer quais plantas indicam presença de água subterrânea é hidrologia empírica.
A escola rural — como a E.E.M.P.C Francisco Araújo Barros — é crucial nesse contexto. Quando estudantes como Maria Ariane e Alana investigam os impactos das mudanças climáticas em sua própria comunidade, fazem pesquisa participativa que serve diretamente àquela realidade.
A educação deixa de ser alienação. Torna-se libertadora. O conhecimento produzido pelos jovens do campo, sobre o campo, para o campo — esse é o ciclo virtuoso que transforma escola em agente de transformação social.
O que os dados revelam
A pesquisa foi conduzida com 15 famílias entre abril e outubro de 2025. Os dados consolidados pintam um quadro de vulnerabilidade estrutural combinada com uma resiliência surpreendente.
Metade de toda a renda das famílias vem diretamente do que é plantado e colhido na terra. A dependência é alta e a vulnerabilidade climática, direta.
A ausência de controle estruturado de receitas e despesas não significa desorganização — significa ausência de ferramentas e letramento financeiro adequados.
A produção local destina-se primariamente ao consumo familiar. Em períodos de crise, as famílias conseguem se manter alimentadas com o que produzem.
Caminhos para o futuro
As comunidades rurais não precisam apenas de caridade. Precisam de políticas públicas inteligentes, de educação que as empodere e de reconhecimento dos seus saberes. A pesquisa identificou oito caminhos concretos para construir um futuro mais resiliente:
Integrada ao currículo: agroecologia prática conectando ciência com saberes locais.
Cisternas, açudes comunitários e sistemas de captação de água de chuva para irrigação na seca.
Painéis solares para irrigação, beneficiamento de alimentos e redução de custos de produção.
Organização coletiva para produção, compra de insumos e comercialização com mais poder de barganha.
Processamento local de alimentos agrega valor significativo e abre novos mercados para a produção.
Aplicativos de previsão climática, monitoramento de pragas e acesso a informação técnica no campo.
Linhas de crédito adaptadas à realidade da agricultura familiar, com carência e juros compatíveis.
Certificação orgânica para acessar mercados premium e diversificar a renda das famílias.
Juventude do campo: imagine o cenário em que jovens permanecem na comunidade porque encontram oportunidades reais — educação de qualidade, crédito acessível, políticas de comercialização que valorizem o produtor local. Esse futuro é possível. Mas exige escolhas políticas conscientes.
E há um caminho muitas vezes ignorado: a educação matemática como autonomia. Se as famílias aprendessem a registrar receitas, calcular custos reais, determinar preço com lucro, poupar e planejar safras — estariam se empoderando economicamente com ferramentas simples e acessíveis.
A luta continua
Quando Maria Ariane Verissimo e Alana dos Santos Felix iniciaram sua investigação, provavelmente não imaginavam quanto suas descobertas iluminariam uma realidade que a mídia grande ignora. Mas elas fizeram mais que pesquisa acadêmica. Fizeram encontro com sua comunidade. Fizeram honra à sua origem.
O Assentamento Salgado Comprido não é exceção. Existem milhares de Salgados Compridos pelo Brasil — comunidades rurais vulneráveis, mas resilientes, que conhecem a terra, que alimentam o país, que merecem reconhecimento e políticas públicas que valorizem seus saberes.
A crise climática é, fundamentalmente, uma crise de desigualdade. Os agricultores de Salgado Comprido não causaram o efeito estufa, mas colhem suas consequências todos os dias.
"Enquanto houver esperança no coração de quem planta, haverá resistência na terra do sertão."
— Itarema, CE · Maio de 2025Porque enquanto houver seca, enquanto houver um agricultor olhando para o céu pedindo chuva, enquanto houver uma mãe calculando como fazer o alimento durar até o final do mês — a luta continua. E as comunidades rurais seguem plantando. Seguem resistindo. Seguem sonhando com futuro possível. Porque, acima de tudo, eles têm fé na terra.
Créditos e ficha técnica
Educação Profissional em Tempo Integral · Itarema, CE
Os Impactos Econômicos das Emergências Climáticas no Assentamento Salgado Comprido
15 famílias do Assentamento Salgado Comprido · Itarema, CE
▶ Referências bibliográficas
- BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Política Nacional sobre Mudança do Clima. Brasília: MMA, 2012.
- D'AMBROSIO, Ubiratan. Educação matemática e sociedade. São Paulo: Papirus, 1990.
- FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
- IPCC. Relatório de Avaliação sobre Mudanças Climáticas. Genebra: IPCC, 2021.
- PEREIRA, João Carlos. Mudanças climáticas e agricultura familiar. São Paulo: Editora Contexto, 2019.
- SILVA, Maria Lúcia. Sustentabilidade e Clima: impactos na zona rural. Curitiba: CRV, 2020.