No litoral oeste do Ceará, a poucos quilômetros de Itarema, ergueu-se um assentamento que nasceu do sangue e da coragem de trabalhadores rurais que se recusaram a ceder suas terras a uma grande empresa. O Assentamento Lagoa do Mineiro é hoje lar de 214 famílias distribuídas em sete comunidades — uma conquista forjada na luta pela Reforma Agrária, selada por mártires e sustentada por décadas de organização coletiva.
📚 Reportagem especial · Ceará Científico 2026
A Escola que Nasce da Terra
Educação do Campo, Educação Profissional, Pedagogia da Alternância, Místicas e Tempo Comunidade — conheça as bases que tornam a EEMPC Francisco Araújo Barros uma escola genuinamente diferente, construída para e pela comunidade do Assentamento Lagoa do Mineiro.
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As terras que hoje formam o assentamento pertenciam ao senhor Francisco Teófilo de Andrade. Por décadas, cerca de 150 famílias de trabalhadores rurais viveram ali como moradores de condição — cultivando a terra, criando animais e construindo suas vidas naquele chão. Tudo mudou em 1985, quando o padre Aristides, sobrinho e herdeiro de Francisco Teófilo, anunciou durante uma missa a venda das terras para a empresa DUCOCO — que pretendia instalar plantações de coco e expulsar todos os moradores.
A resposta dos trabalhadores não tardou. Reunidos em torno das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e apoiados pela Diocese de Itapipoca, sob a liderança de Dom Paulo, os moradores começaram a se organizar nas leituras da Bíblia e nas reuniões noturnas. Quando a DUCOCO construiu uma cerca para demarcar o terreno, cerca de 90 trabalhadores a derrubaram diante de 16 policiais, bradando: "ou a vida ou a morte!" O conflito custou a vida de três trabalhadores — mártires da luta pela terra.
"A gente sabia que podia morrer, mas não ia sair daqui. Essa terra foi comprada com o nosso suor. Ou a vida ou a morte!"
— Trabalhadores do Assentamento Lagoa do Mineiro, 1986
Linha do tempo
- Até 1985 Cerca de 150 famílias vivem como moradores de condição nas terras de Francisco Teófilo de Andrade. O anúncio da venda para a DUCOCO desencadeia a organização dos trabalhadores, apoiados pelas CEBs e pela Diocese de Itapipoca.
- 1984 Francisco Araújo Barros começa a organizar famílias das comunidades vizinhas para lutar pelo direito à terra e à Reforma Agrária. Surgem os primeiros núcleos de resistência articulados às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
- 1986 Trabalhadores derrubam a cerca da DUCOCO. Três mártires perdem a vida no conflito. O Decreto nº 92.826, de 26 de junho de 1986, determina a desapropriação das terras. Em 19 de setembro, os trabalhadores tomam posse formal do assentamento.
- 1987 Por meio da Portaria nº 573 do MIRAD, de 13 de julho de 1987, é criado oficialmente o Projeto de Assentamento Lagoa do Mineiro, reconhecendo as sete comunidades que o compõem. Em 12 de agosto de 1987, Francisco Araújo Barros é assassinado a tiro e degolado com sua ferramenta de trabalho — torna-se mártir e dá nome à escola do assentamento.
- 1989 O MST surge no Ceará com apoio da CPT, da CUT e do Sindicato de Quixeramobim. Primeira ocupação estadual: Fazenda Reunidas de São Joaquim — hoje Assentamento 25 de Maio. A luta se expande por todo o litoral e sertão.
- 1991 Em 14 de abril de 1991, é fundada a COPAGLAM — Cooperativa dos Produtores Agrícolas do Assentamento Lagoa do Mineiro — com 204 membros, fortalecendo a economia solidária do assentamento.
- 1998 Construção do Açude Corrente, com capacidade de 731.250 m³, garantindo água para a produção agrícola e o abastecimento das comunidades.
- 2002 Início da Caminhada dos Mártires, articulada pelas CEBs, CPT e MST. Realizada todo dia 12 de agosto, homenageia os trabalhadores que tombaram na luta pela terra e repassa a memória às novas gerações. A caminhada parte da comunidade Corrente e encerra em Barbosa, na Igreja Nossa Senhora da Libertação.
- 2005 O Projeto Lagoa das Artes é contemplado pelo Programa BNB de Cultura. O assentamento torna-se Ponto de Cultura, integrando o coletivo "Nós: Artistas da Vida" com mais quatro assentamentos da região (Pachicu, Patos/Bela Vista, Salgado Cumprido). Cerca de 1.300 pessoas são beneficiadas pelas ações culturais.
- 2010 O Projeto de Lei 08/10, do Deputado Nelson Martins (PT), denomina oficialmente a escola do assentamento como Francisco Araújo Barros, aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.
- 2011 Em 3 de março, começa a funcionar a EEMPC Francisco Araújo Barros, escola nomeada em homenagem ao mártir da luta pela terra. A autorização formal vem pelo Decreto nº 30.493, de 18 de abril de 2011.
- 2012 Em 15 de fevereiro de 2012, solenidade oficial de inauguração da EEMPC Francisco Araújo Barros, com a Secretária de Educação Izolda Cela. Investimento de R$ 3,6 milhões dos governos federal e estadual. A escola dispõe de 12 salas, capacidade para 1.600 alunos, e 10 ha de Campo Experimental doados pelo assentamento.
- 2014 Em 22 de abril de 2014, mais de 100 famílias ocupam a Fazenda Sítio Viana, em Itarema, organizadas pelo MST — nasce o Acampamento Francisco Araújo Barros, em homenagem ao mártir.
- 2021 Em 12 de agosto de 2021, imissão de posse da antiga Fazenda Sítio Viana. Nasce o Assentamento Zé Santana, nome em homenagem a uma liderança do Lagoa do Mineiro. A regularização fundiária é viabilizada pela Lei nº 17.533/2021 (Lei Wilson Brandão), por meio do IDACE.
- 2022–2023 Implantação dos cursos técnicos: em 2022, Administração e Agroecologia na modalidade subsequente; em 2023, cursos integrados de Agroecologia e Informática, ampliando o horizonte educacional dos jovens do assentamento.
- 2026 Estudantes do Curso Técnico em Informática desenvolvem o Portal da Comunidade como parte do projeto Ceará Científico, preservando e divulgando a história e os saberes do assentamento.
Crescimento ao longo dos anos
Com a posse da terra conquistada, as sete comunidades do assentamento — Saguim, Lagoa do Mineiro, Mineiro Velho, Corrente, Barbosa, Cedro e Córrego das Moças — iniciaram a construção coletiva de uma nova vida. A COPAGLAM, fundada em 1991, passou a organizar a produção agrícola e a comercialização, garantindo renda e autonomia para as famílias assentadas. O Açude Corrente, concluído em 1998, transformou a produção local ao assegurar irrigação durante o período de estiagem.
Hoje, o assentamento reúne 214 famílias — 130 assentadas e 90 agregadas — distribuídas nas sete comunidades. A escola EEMPC Francisco Araújo Barros, com 249 alunos distribuídos em 8 turmas em 2025, atendendo estudantes de 25 comunidades do entorno, tornou-se o centro irradiador de educação e cultura. Adota a Pedagogia da Alternância para integrar o Tempo Escola ao Tempo Comunidade, valorizando os saberes do campo em cada etapa da formação.
Arte, Cultura e Identidade — Ponto de Cultura "Nós: Artistas da Vida"
A experiência de ocupação da terra no Assentamento Lagoa do Mineiro passa não só pelo desenvolvimento da atividade agrícola: as manifestações artísticas e culturais são cultivadas de modo a responder aos anseios do povo assentado, manter a coesão social e preservar a memória dos tempos de luta. Em 2005, o Projeto Lagoa das Artes foi contemplado pelo Programa BNB de Cultura, tornando o assentamento um Ponto de Cultura. Junto com mais quatro assentamentos, formou o coletivo "Nós: Artistas da Vida", que reúne cerca de 1.300 pessoas em ações de arte, formação e geração de renda.
Os Mestres e Mestras do Reisado e Dramas de Lagoa do Mineiro se destacam no âmbito da cultura popular tradicional, com apresentações que combinam elementos cênicos cômicos e improvisados, histórias cantadas e contadas. O coletivo organiza o Festival de Poetas Populares e Emboladores de Coco, o Encontro das Dramistas e a publicação de cordéis escritos pelos próprios alunos das escolas do assentamento.
Manifestações culturais do assentamento: Grupo de Teatro · Reisado e Dramas · Coral Juvenil · Banda Musical · Literatura de Cordel · São Gonçalo · Torém (descendência indígena) · Místicas · Caminhada dos Mártires (todo 12 de agosto, desde 2002 — da comunidade Corrente até a Igreja Nossa Senhora da Libertação, em Barbosa).
"Do sangue dos nossos mártires nasce à força e a garra para continuarmos a luta em defesa da vida, dos nossos territórios livres da opressão."
— Cosma Damasceno, dirigente estadual do MST e Coordenadora Pedagógica da EEMPC Francisco Araújo Barros
Galeria histórica
Personagens da história
Nasceu em 31 de maio de 1945 na localidade de Lagoa do Mineiro, em Itarema. Casou-se com a agricultora Maria de Jesus da Silva, com quem teve oito filhos. Apenas alfabetizado — o difícil acesso à escola e o excesso de trabalho impediram que fosse além. A partir de 1984, reuniu famílias de comunidades vizinhas para lutar pela terra, pela Reforma Agrária e pela justiça social. Em 12 de agosto de 1987, durante trabalho coletivo, foi morto a tiro e degolado com sua própria ferramenta. Tornou-se mártir e símbolo máximo da resistência camponesa. A escola do assentamento leva seu nome em sua homenagem.
Bispo da Diocese de Itapipoca que acolheu e apoiou os trabalhadores rurais por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Seu suporte foi decisivo para a organização da resistência e para garantir que a luta chegasse ao conhecimento das autoridades e da sociedade.
Liderança educacional à frente da escola do assentamento, responsável por consolidar a Pedagogia da Alternância e a implantação dos cursos técnicos em Informática e Agroecologia, abrindo novos caminhos para os jovens da comunidade.
Mestre em Agroecossistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Coordenadora Pedagógica da EEMPC Francisco Araújo Barros e dirigente estadual do MST. Referência na implementação da Pedagogia da Alternância, do Campo Experimental e da matriz tecnológica agroecológica na escola do assentamento.
Créditos e ficha técnica
EEMPC Francisco Araújo Barros · Itarema, CE
Educação Profissional em Tempo Integral · Itarema, CE
Portal Digital da Comunidade — memória e história do Assentamento Lagoa do Mineiro
214 famílias · 7 comunidades · Itarema, CE · desde 1986
▶ Referências bibliográficas
- BRASIL. Decreto n.º 92.826, de 19 de setembro de 1986. Cria o Projeto de Assentamento Lagoa do Mineiro. Diário Oficial da União, Brasília, 1986.
- BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Portaria n.º 573/MIRAD, de 1987. Cria oficialmente o PA Lagoa do Mineiro. Brasília: MIRAD, 1987.
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- CEARÁ. Decreto n.º 30.493, de 3 de março de 2011. Autoriza o funcionamento da EEMPC Francisco Araújo Barros. Diário Oficial do Estado do Ceará, Fortaleza, 2011.
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- DO NASCIMENTO, Cícero Danilo G.; DINIZ, Aldiva Sales. A EEM Francisco Araújo Barros, um símbolo de resistência camponesa no Ceará. MAG/UVA, Sobral, CE.
- MST — Página do MST. Acampamento Francisco Araújo Barros completa dois anos. Por Tiago Pereira, 2016.
- MST — Página do MST. No Ceará, famílias Sem Terra comemoram conquista da terra após sete anos de luta. Por Aline Oliveira, 2021.
- PONTO DE CULTURA "Nós: Artistas da Vida". Histórico do Assentamento Lagoa do Mineiro. Itarema, CE.