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Vista da comunidade ao longo dos anos

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História da comunidade

As raízes que
nos definem

Uma jornada por décadas de luta, cultura e pertencimento no coração do Ceará.

Ceará Científico Atualizado em maio de 2026 Leitura: 8 min
História Por estudantes do Curso Técnico em Informática
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No litoral oeste do Ceará, a poucos quilômetros de Itarema, ergueu-se um assentamento que nasceu do sangue e da coragem de trabalhadores rurais que se recusaram a ceder suas terras a uma grande empresa. O Assentamento Lagoa do Mineiro é hoje lar de 214 famílias distribuídas em sete comunidades — uma conquista forjada na luta pela Reforma Agrária, selada por mártires e sustentada por décadas de organização coletiva.

📚 Reportagem especial · Ceará Científico 2026

A Escola que Nasce da Terra

Educação do Campo, Educação Profissional, Pedagogia da Alternância, Místicas e Tempo Comunidade — conheça as bases que tornam a EEMPC Francisco Araújo Barros uma escola genuinamente diferente, construída para e pela comunidade do Assentamento Lagoa do Mineiro.

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Origem do assentamento

Primeiros moradores e construções da comunidade
../img/galeria/historia-origem.jpg — Substitua por foto das origens da comunidade

As terras que hoje formam o assentamento pertenciam ao senhor Francisco Teófilo de Andrade. Por décadas, cerca de 150 famílias de trabalhadores rurais viveram ali como moradores de condição — cultivando a terra, criando animais e construindo suas vidas naquele chão. Tudo mudou em 1985, quando o padre Aristides, sobrinho e herdeiro de Francisco Teófilo, anunciou durante uma missa a venda das terras para a empresa DUCOCO — que pretendia instalar plantações de coco e expulsar todos os moradores.

A resposta dos trabalhadores não tardou. Reunidos em torno das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e apoiados pela Diocese de Itapipoca, sob a liderança de Dom Paulo, os moradores começaram a se organizar nas leituras da Bíblia e nas reuniões noturnas. Quando a DUCOCO construiu uma cerca para demarcar o terreno, cerca de 90 trabalhadores a derrubaram diante de 16 policiais, bradando: "ou a vida ou a morte!" O conflito custou a vida de três trabalhadores — mártires da luta pela terra.

"A gente sabia que podia morrer, mas não ia sair daqui. Essa terra foi comprada com o nosso suor. Ou a vida ou a morte!"

— Trabalhadores do Assentamento Lagoa do Mineiro, 1986

Linha do tempo

  1. Até 1985 Cerca de 150 famílias vivem como moradores de condição nas terras de Francisco Teófilo de Andrade. O anúncio da venda para a DUCOCO desencadeia a organização dos trabalhadores, apoiados pelas CEBs e pela Diocese de Itapipoca.
  2. 1984 Francisco Araújo Barros começa a organizar famílias das comunidades vizinhas para lutar pelo direito à terra e à Reforma Agrária. Surgem os primeiros núcleos de resistência articulados às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
  3. 1986 Trabalhadores derrubam a cerca da DUCOCO. Três mártires perdem a vida no conflito. O Decreto nº 92.826, de 26 de junho de 1986, determina a desapropriação das terras. Em 19 de setembro, os trabalhadores tomam posse formal do assentamento.
  4. 1987 Por meio da Portaria nº 573 do MIRAD, de 13 de julho de 1987, é criado oficialmente o Projeto de Assentamento Lagoa do Mineiro, reconhecendo as sete comunidades que o compõem. Em 12 de agosto de 1987, Francisco Araújo Barros é assassinado a tiro e degolado com sua ferramenta de trabalho — torna-se mártir e dá nome à escola do assentamento.
  5. 1989 O MST surge no Ceará com apoio da CPT, da CUT e do Sindicato de Quixeramobim. Primeira ocupação estadual: Fazenda Reunidas de São Joaquim — hoje Assentamento 25 de Maio. A luta se expande por todo o litoral e sertão.
  6. 1991 Em 14 de abril de 1991, é fundada a COPAGLAM — Cooperativa dos Produtores Agrícolas do Assentamento Lagoa do Mineiro — com 204 membros, fortalecendo a economia solidária do assentamento.
  7. 1998 Construção do Açude Corrente, com capacidade de 731.250 m³, garantindo água para a produção agrícola e o abastecimento das comunidades.
  8. 2002 Início da Caminhada dos Mártires, articulada pelas CEBs, CPT e MST. Realizada todo dia 12 de agosto, homenageia os trabalhadores que tombaram na luta pela terra e repassa a memória às novas gerações. A caminhada parte da comunidade Corrente e encerra em Barbosa, na Igreja Nossa Senhora da Libertação.
  9. 2005 O Projeto Lagoa das Artes é contemplado pelo Programa BNB de Cultura. O assentamento torna-se Ponto de Cultura, integrando o coletivo "Nós: Artistas da Vida" com mais quatro assentamentos da região (Pachicu, Patos/Bela Vista, Salgado Cumprido). Cerca de 1.300 pessoas são beneficiadas pelas ações culturais.
  10. 2010 O Projeto de Lei 08/10, do Deputado Nelson Martins (PT), denomina oficialmente a escola do assentamento como Francisco Araújo Barros, aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.
  11. 2011 Em 3 de março, começa a funcionar a EEMPC Francisco Araújo Barros, escola nomeada em homenagem ao mártir da luta pela terra. A autorização formal vem pelo Decreto nº 30.493, de 18 de abril de 2011.
  12. 2012 Em 15 de fevereiro de 2012, solenidade oficial de inauguração da EEMPC Francisco Araújo Barros, com a Secretária de Educação Izolda Cela. Investimento de R$ 3,6 milhões dos governos federal e estadual. A escola dispõe de 12 salas, capacidade para 1.600 alunos, e 10 ha de Campo Experimental doados pelo assentamento.
  13. 2014 Em 22 de abril de 2014, mais de 100 famílias ocupam a Fazenda Sítio Viana, em Itarema, organizadas pelo MST — nasce o Acampamento Francisco Araújo Barros, em homenagem ao mártir.
  14. 2021 Em 12 de agosto de 2021, imissão de posse da antiga Fazenda Sítio Viana. Nasce o Assentamento Zé Santana, nome em homenagem a uma liderança do Lagoa do Mineiro. A regularização fundiária é viabilizada pela Lei nº 17.533/2021 (Lei Wilson Brandão), por meio do IDACE.
  15. 2022–2023 Implantação dos cursos técnicos: em 2022, Administração e Agroecologia na modalidade subsequente; em 2023, cursos integrados de Agroecologia e Informática, ampliando o horizonte educacional dos jovens do assentamento.
  16. 2026 Estudantes do Curso Técnico em Informática desenvolvem o Portal da Comunidade como parte do projeto Ceará Científico, preservando e divulgando a história e os saberes do assentamento.

Crescimento ao longo dos anos

Comunidade em fase de crescimento e desenvolvimento
../img/galeria/historia-crescimento.jpg — Substitua por foto da fase de crescimento

Com a posse da terra conquistada, as sete comunidades do assentamento — Saguim, Lagoa do Mineiro, Mineiro Velho, Corrente, Barbosa, Cedro e Córrego das Moças — iniciaram a construção coletiva de uma nova vida. A COPAGLAM, fundada em 1991, passou a organizar a produção agrícola e a comercialização, garantindo renda e autonomia para as famílias assentadas. O Açude Corrente, concluído em 1998, transformou a produção local ao assegurar irrigação durante o período de estiagem.

Hoje, o assentamento reúne 214 famílias — 130 assentadas e 90 agregadas — distribuídas nas sete comunidades. A escola EEMPC Francisco Araújo Barros, com 249 alunos distribuídos em 8 turmas em 2025, atendendo estudantes de 25 comunidades do entorno, tornou-se o centro irradiador de educação e cultura. Adota a Pedagogia da Alternância para integrar o Tempo Escola ao Tempo Comunidade, valorizando os saberes do campo em cada etapa da formação.

Vista panorâmica atual da comunidade
Vista panorâmica do Assentamento Lagoa do Mineiro, Itarema — CE

Arte, Cultura e Identidade — Ponto de Cultura "Nós: Artistas da Vida"

A experiência de ocupação da terra no Assentamento Lagoa do Mineiro passa não só pelo desenvolvimento da atividade agrícola: as manifestações artísticas e culturais são cultivadas de modo a responder aos anseios do povo assentado, manter a coesão social e preservar a memória dos tempos de luta. Em 2005, o Projeto Lagoa das Artes foi contemplado pelo Programa BNB de Cultura, tornando o assentamento um Ponto de Cultura. Junto com mais quatro assentamentos, formou o coletivo "Nós: Artistas da Vida", que reúne cerca de 1.300 pessoas em ações de arte, formação e geração de renda.

Os Mestres e Mestras do Reisado e Dramas de Lagoa do Mineiro se destacam no âmbito da cultura popular tradicional, com apresentações que combinam elementos cênicos cômicos e improvisados, histórias cantadas e contadas. O coletivo organiza o Festival de Poetas Populares e Emboladores de Coco, o Encontro das Dramistas e a publicação de cordéis escritos pelos próprios alunos das escolas do assentamento.

Manifestações culturais do assentamento: Grupo de Teatro · Reisado e Dramas · Coral Juvenil · Banda Musical · Literatura de Cordel · São Gonçalo · Torém (descendência indígena) · Místicas · Caminhada dos Mártires (todo 12 de agosto, desde 2002 — da comunidade Corrente até a Igreja Nossa Senhora da Libertação, em Barbosa).

"Do sangue dos nossos mártires nasce à força e a garra para continuarmos a luta em defesa da vida, dos nossos territórios livres da opressão."

— Cosma Damasceno, dirigente estadual do MST e Coordenadora Pedagógica da EEMPC Francisco Araújo Barros

Galeria histórica

Trabalhadores organizados durante a luta pela terra, 1986
Trabalhadores organizados durante o conflito com a DUCOCO, 1986
Cerimônia de posse formal do assentamento, setembro de 1986
Posse formal do assentamento — 19 de setembro de 1986
Fundação da COPAGLAM em 14 de abril de 1991
Fundação da COPAGLAM — Cooperativa dos Produtores Agrícolas, 1991
Inauguração da Escola EEMPC Francisco Araújo Barros, 2011
Início do funcionamento da EEMPC Francisco Araújo Barros — março de 2011
Estudantes do Curso Técnico em Informática, turma 2025.1
Primeira turma do Curso Técnico em Informática — 2025.1, marco histórico do assentamento

Personagens da história

Francisco Araújo Barros — mártir da luta pela terra
Francisco Araújo Barros Mártir da Reforma Agrária · Lagoa do Mineiro, Itarema

Nasceu em 31 de maio de 1945 na localidade de Lagoa do Mineiro, em Itarema. Casou-se com a agricultora Maria de Jesus da Silva, com quem teve oito filhos. Apenas alfabetizado — o difícil acesso à escola e o excesso de trabalho impediram que fosse além. A partir de 1984, reuniu famílias de comunidades vizinhas para lutar pela terra, pela Reforma Agrária e pela justiça social. Em 12 de agosto de 1987, durante trabalho coletivo, foi morto a tiro e degolado com sua própria ferramenta. Tornou-se mártir e símbolo máximo da resistência camponesa. A escola do assentamento leva seu nome em sua homenagem.

Dom Paulo — Bispo da Diocese de Itapipoca
Dom Paulo Diocese de Itapipoca — apoio pastoral

Bispo da Diocese de Itapipoca que acolheu e apoiou os trabalhadores rurais por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Seu suporte foi decisivo para a organização da resistência e para garantir que a luta chegasse ao conhecimento das autoridades e da sociedade.

Maria Ivaniza Martins de Sousa Nascimento — diretora da escola
Maria Ivaniza Martins de Sousa Nascimento Diretora — EEMPC Francisco Araújo Barros

Liderança educacional à frente da escola do assentamento, responsável por consolidar a Pedagogia da Alternância e a implantação dos cursos técnicos em Informática e Agroecologia, abrindo novos caminhos para os jovens da comunidade.

Cosma Damasceno — Coordenadora Pedagógica
Cosma dos Santos Damasceno Coordenadora Pedagógica — Militante MST

Mestre em Agroecossistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Coordenadora Pedagógica da EEMPC Francisco Araújo Barros e dirigente estadual do MST. Referência na implementação da Pedagogia da Alternância, do Campo Experimental e da matriz tecnológica agroecológica na escola do assentamento.

Créditos e ficha técnica

Pesquisa e documentação Estudantes do Curso Técnico em Informática

EEMPC Francisco Araújo Barros · Itarema, CE

Instituição E.E.M.P.C Francisco Araújo Barros

Educação Profissional em Tempo Integral · Itarema, CE

Projeto Ceará Científico 2026

Portal Digital da Comunidade — memória e história do Assentamento Lagoa do Mineiro

Território documentado Assentamento Lagoa do Mineiro

214 famílias · 7 comunidades · Itarema, CE · desde 1986

Referências bibliográficas
  • BRASIL. Decreto n.º 92.826, de 19 de setembro de 1986. Cria o Projeto de Assentamento Lagoa do Mineiro. Diário Oficial da União, Brasília, 1986.
  • BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Portaria n.º 573/MIRAD, de 1987. Cria oficialmente o PA Lagoa do Mineiro. Brasília: MIRAD, 1987.
  • CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
  • CANUTO, Antônio; LUZ, Cássia Regina da S.; ANDRADE, Thiago Valentim P. (Orgs.). Conflitos no Campo — Brasil. Goiânia: CPT Nacional, 2022.
  • CEARÁ. Decreto n.º 30.493, de 3 de março de 2011. Autoriza o funcionamento da EEMPC Francisco Araújo Barros. Diário Oficial do Estado do Ceará, Fortaleza, 2011.
  • COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT). Conflitos no Campo Brasil. Goiânia: CPT, 1986–2025.
  • FERNANDES, Bernardo Mançano. A Formação do MST no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2000.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • INCRA — Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Relatório de assentamentos do Ceará. Brasília: INCRA, 2023.
  • MARTINS, José de Souza. O Sujeito Oculto: ordem e transgressão na reforma agrária. Porto Alegre: UFRGS, 2003.
  • SILVA, José Graziano da. A modernização dolorosa: estrutura agrária, fronteira agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
  • STÉDILE, João Pedro; FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava Gente: a trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 1999.
  • CEARÁ. Lei nº 17.533, de 22 de junho de 2021 (Lei Wilson Brandão). Regularização fundiária de assentamentos estaduais. Fortaleza: IDACE, 2021.
  • DAMASCENO, Cosma dos Santos. Contribuições e desafios da Escola do Campo Francisco Araújo Barros para construção do projeto de Agricultura Camponesa do MST — Ceará. Dissertação — UFSC, Florianópolis, 2015.
  • DO NASCIMENTO, Cícero Danilo G.; DINIZ, Aldiva Sales. A EEM Francisco Araújo Barros, um símbolo de resistência camponesa no Ceará. MAG/UVA, Sobral, CE.
  • MST — Página do MST. Acampamento Francisco Araújo Barros completa dois anos. Por Tiago Pereira, 2016.
  • MST — Página do MST. No Ceará, famílias Sem Terra comemoram conquista da terra após sete anos de luta. Por Aline Oliveira, 2021.
  • PONTO DE CULTURA "Nós: Artistas da Vida". Histórico do Assentamento Lagoa do Mineiro. Itarema, CE.

Preservação da memória

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